Concerto de encerramento apresentará duas obras inéditas para flauta doce

21/04/2018 10:42

Obras para flauta doce de diversas gerações de compositores brasileiros constituem o programa do concerto de encerramento do II Seminário de Flauta Doce da UFRJ. Serão apresentadas peças de Antonio Celso Ribeiro, Daniel Figueiredo, Liduíno Pitombeira, Osvaldo Lacerda, Sérgio Vasconcellos Corrêa, além de obras inéditas de Fábio Adour e Patricia Michelini.

O concerto será realizado pelo Flustres Ensemble, com Alcimar do Lago, Alfredo Zaine, David Castelo e Patricia Michelini nas flautas doces e Fábio Adour no violão.

Confira abaixo o programa com comentários:

 

Daniel Figueiredo (1995) - Caxambu, São Paulo (2015)

Esta peça para quatro flautas doces contralto, duas afinadas em 440Hz e duas em 415Hz, foi elaborada de maneira a possibilitar dissonâncias constantes sem que se perdesse o brilho característico das notas e tonalidades mais favorecidas destes instrumentos.

 

Osvaldo Lacerda (1927-2011) - Três Duetos (1973)

Por Daniele Cruz Barros (2010): No primeiro duo, dois procedimentos opostos funcionam simultaneamente. Quando a flauta doce soprano apresenta o tema no modo de Ré dórico, a contralto faz um acompanhamento cromático que, muitas vezes "contamina" o diatonismo da primeira voz. O retorno do tema, desta vez na contralto, é muito mais puro do ponto de vista do modo (dórico). Cabe então à soprano realizar os movimentos cromáticos ascendentes e descendentes que o acompanham. As articulações indicadas reforçam o contraste de caráter entre as vozes: quando uma tem uma melodia muito expressiva, a outra insiste em um segmento em staccato. O segundo movimento, muito rico do ponto de vista harmônico, é desenvolvido em Si menor, de forma ABA, e apresenta um belo êxito de contracanto entre as duas flautas. O terceiro movimento, também de forma ternária, apresenta um tema bem alegre nos modos mixolídio e lídio-mixolídio de Dó e uma seção B contrastante em Dó eólio com algumas incursões no modo frígio. A sonoridade resultante deste movimento, assim como a frequência de intervalos de terças, evoca os pífaros do Nordeste brasileiro. Nestes duos, o compositor desenvolve um verdadeiro contraponto entre as duas flautas.

 

Fabio Adour (1973) - Pecinha nº3 (1993)*

Esta obra, para flauta doce soprano e violão. faz parte de um conjunto de pequenas peças, para variadas formações instrumentais, compostas em 1993 a partir das propostas do livro Melos e Harmonia Acústica, de César Guerra-Peixe. A peça começa com uma série na região mais grave do violão, engendrando uma curta passacaglia. Após uma seção lírica central, a textura inicial retorna, seguida por sete variações. A peça conclui com o tema gerador em tutti.

 

Liduíno Pitombeira (1962) - Seresta (2004)

Seresta é a denominação brasileira de serenata, gênero presente na tradição portuguesa desde o início do século XIX. Consiste na prática noturna de interpretar canções líricas diretamente à amada ou em andanças pelas ruas da cidade. Seresta nº8 faz parte de um ciclo de obras que retratam danças e rítmos do Brasil. É constituída por dois movimentos, ambos inspirados nas sonoridades do compositor gaúcho Radamés Gnattali (1906-1988). O primeiro movimento, Valsa, funciona como um delicado prelúdio para o segundo movimento, Samba, de caráter mais rítmico. A peça é dedicada à flautista brasileira Daniele Cruz Barros.

 

Antonio Celso Ribeiro (1962) - Danse des fous (2009)

Danse des fous (para flautas doce sopranino e contralto e violão com scordattura) foi escrita como parte da trilha incidental para a peça de teatro “Carta ao Pai” de Franz Kafka, encenada pela Cia Absurda de Teatro de Belo Horizonte, dirigida por Ione de Medeiros em 1992 e revisada em 2009 para fazer parte de repertório de música de concerto. É fortemente inspirada na ductia. O uso de scordattura é uma tentativa de evocar a lira céltica e a percussão no tampo do violão nos remete à memória do derbake (tambor árabe).

 

Patricia Michelini (1971) - Lamento em Blues (2018)*

O título desta peça, dedicada a Helder Parente, indica os dois gêneros que lhe servem como inspiração: o lamento, típico do período barroco, consiste em uma sequência descendente de notas e progressões harmônicas que se repetem como base para variações melódicas; o blues, de tradição afro-americana, se utiliza de harmonias específicas em sequências repetitivas, sobre as quais se declamam frases melódicas. Ambos os gêneros têm caráter melancólico e possibilitam diálogos belos e cúmplices entre as vozes. Para valorizar tais características, são explorados recursos técnicos que enfatizam a expressividade nas flautas doces.

 

Sérgio de Vasconcellos Corrêa (1934) - Moacaretá (1974)

Por Lucia Carpena (2018): Conheci Moacaretá pelas mãos do inesquecível Helder Parente, em uma das muitas Oficinas de Música de Curitiba que frequentei, e desde o primeiro momento me chamou a atenção a presença de elementos da cultura indígena brasileira, a começar pelo título. Era algo que eu jamais havia visto no repertório da flauta doce e me fez repensar, além do próprio repertório ao qual eu estava acostumada, o que significava tocar flauta doce no Brasil, o que era ser uma flautista brasileira. Para além do título, a obra ainda traz ao longo de seus cinco movimentos outros elementos indígenas.

        No primeiro movimento, Música Instrumental da Tribo Tukano, a melodia indígena se apresenta em segundas paralelas (talvez emulando a sonoridade das flautas que este grupo possa ter utilizado?), numa sonoridade que até hoje me soa desafiadora. Nos dois movimentos seguintes, Dança dos Miranhas I e Dança dos Miranhas II, Vasconcellos Corrêa utiliza os temas recolhidos pelos viajantes Spix e Martius junto à tribo homônima, entre 1818 e 1820. Na segunda dança, outro recurso que também talvez tenha sido usado por Vasconcellos Corrêa para emular as flautas indígenas: o uso de dois pares de garrafas afinadas com água dentro, uma com intervalo de 5ª justa e outra, em 3ª menor. O efeito é mágico, misterioso, e sempre desperta grande atenção do público. O quarto movimento, Auãn – Flauta Juruna (grupo do Baixo Xingu), escrito para flauta soprano solo, é um grande recitativo, que se desenvolve apenas na região aguda da flauta e faz uso de quartos de tom. E por fim, o quinto e último movimento, Fuga, é baseado em três temas de origem indígena. O primeiro provavelmente é uma dança dos Coroado (informação ainda a ser confirmada); o segundo é Canide Ioune, dos Tupinambá, coletado por Jean de Léry, na Baía de Guanabara, em 1553, e o terceiro tema é Nozani-na, dos Pareci, recolhido por Roquete Pinto.

           Moacaretá é a palavra indígena que designa o conselho dos anciãos de uma tribo, formado pelo cacique, o pajé, e mais três idosos da tribo. Sua principal tarefa é manter vivas as tradições e costumes dos antigos por meio de narrativas orais, feitas aos mais moços, tal qual Mnemòsine tropical. A oralidade é, por definição, sonora, assim como é a música, e Vasconcellos Corrêa nos proporciona em sua Moacaretá a oportunidade de contato com elementos da cultura indígena brasileira, nos faz lembrar dos povos originais do Brasil, de sua importância para a construção de nossa identidade como povo, como sociedade.

 

Fontes:

BARROS, Daniele Cruz. A flauta doce no século XX: o exemplo do Brasil. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2010. p.170.

CARPENA, Lucia Becker. Dez obras essenciais para flauta doce: valha-me, Euterpe! lab.flauta, 2018. Disponível em: <http://labflauta.org/conteudo/>